O carro elétrico já chegou na sua cidade, e dá para provar

A primeira reação de quem ouve essa conversa costuma ser a mesma: "mas aqui não tem carro elétrico suficiente". É uma objeção justa, e que tem resposta com dado oficial, não com estimativa de mercado. A frota registrada por município e tipo de combustível está nos dados abertos do SENATRAN, que é cadastro de veículo, não pesquisa de intenção.

Esse levantamento é feito para a cidade específica de cada farmácia, em qualquer estado do país. Como exemplo do método, veja o que aconteceu em duas cidades do interior do Paraná, ambas fora de qualquer capital:

Ano Toledo Cascavel
2022 48 182
2023 71 319
2024 129 581
2025 235 1.046
2026 519 2.145

Veículos elétricos e híbridos registrados, junho de cada ano. Fonte: SENATRAN.

Em quatro anos, a frota eletrificada multiplicou por quase 11 em Toledo e por quase 12 em Cascavel. E o mais relevante para quem está decidindo agora: a curva não está desacelerando. O último ano cresceu mais rápido que os anteriores nas duas cidades, 121% em Toledo e 105% em Cascavel.

O padrão não é do Paraná, é nacional: no Brasil, os eletrificados já representam 16% das vendas de veículos novos. Um a cada seis carros que saem da concessionária hoje não é mais 100% combustão. Toledo e Cascavel são o exemplo que já calculamos; a mesma curva, calculada para a cidade da sua farmácia, entra no diagnóstico.

Por que o perfil da farmácia encaixa bem com recarga rápida

A resposta está no tempo que o cliente já passa no local, sem precisar de nenhum estímulo novo.

Numa farmácia, esse tempo já é a norma: o cliente aguarda receita, espera manipulado, circula pela loja escolhendo o que precisa, de 10 a 40 minutos. Outros perfis de ponto, como posto de combustível, têm rotina de permanência diferente e sua própria lógica de avaliação.

É por isso que a recarga em corrente contínua encaixa tão bem em farmácia. O carregador não cria uma espera nova nem exige que o cliente mude o comportamento dele. Ele aproveita uma permanência que já existe e que hoje não gera nenhuma receita adicional. Quem quiser entender a diferença técnica entre os dois formatos de carregador encontra no artigo sobre carregador AC ou DC, e a lógica específica de posto está detalhada em eletroposto para postos de combustível.

Não é experimento: já existe rede de farmácia operando

Acompanhando a malha nacional de pontos de recarga, encontramos farmácias brasileiras que já instalaram carregadores. O caso mais direto é a rede paranaense Unipreço, que opera pontos em três lojas, em Guaratuba, Lapa e Paranaguá, todos visíveis nos mapas públicos de recarga. Pequenas redes regionais também estão testando o modelo.

Isso muda a natureza da decisão que está na sua mesa. Não é mais "vamos ser os primeiros a arriscar algo que ninguém testou". É "um concorrente do meu setor já está testando, num mercado que cresce de forma mensurável, e eu ainda não".

As duas receitas que o carregador traz, e a segunda é a que importa

Quando se fala em faturamento, a maioria pensa só na receita da recarga em si. Para a farmácia, essa costuma ser a menor parte. O que muda o jogo é o movimento que o ponto gera dentro da loja, e ele vem de duas origens bem diferentes.

Origem 1

A compra por impulso de quem está esperando

O motorista fica de 20 a 40 minutos plugado. Ele entra na loja porque está ali parado mesmo, e leva uma bebida, um snack, um item de conveniência. É receita fácil, mas é a menos interessante das duas, porque o ticket é baixo.

Origem 2

O cliente novo que chega pelo aplicativo

Todo motorista de carro elétrico usa aplicativo para achar onde recarregar. No momento em que a sua farmácia tem um ponto, ela passa a aparecer nesse mapa para todos os motoristas da região, inclusive quem nunca entrou na sua loja e talvez nem soubesse que ela existe.

Esse motorista chega até você por causa do carregador. Mas, já estando no local com 30 minutos livres, ele resolve ali alguma necessidade real de farmácia, medicamento, produto de higiene, item de compra recorrente, que ele faria de qualquer forma naquela semana. A diferença é que agora faz na sua loja, e não na do concorrente.

É isso que transforma o carregador de item de conveniência em ferramenta de aquisição de cliente. Você não está vendendo um refrigerante para quem esperava. Você está sendo apresentado, de graça e de forma permanente, a um público inteiro da sua cidade que hoje não te conhece.

Quanto isso representa em reais

O que define o resultado é quanto o ponto é usado. Monitoramos a operação real de pontos de recarga pelo país para trabalhar com faixas observadas, em vez de projeção de fabricante. A tabela abaixo mostra a receita adicional estimada dentro da loja, por mês, conforme o desempenho do ponto:

Desempenho do ponto Uso semanal Cenário provável (mês) Cenário otimista (mês)
Bom 20 a 40 h/semana R$ 2.100 R$ 5.320
Ótimo 40 a 60 h/semana R$ 3.500 R$ 8.860
Excelente acima de 60 h/semana R$ 5.400 R$ 13.670

Receita adicional na loja, por mês, sem contar a contrapartida do próprio carregador.

Vale reparar em um detalhe: esses valores são receita na loja, e não incluem o que a farmácia recebe pela cessão do espaço. As duas coisas somam, não competem entre si. Numa análise real, o cálculo é refeito com o ticket médio da sua farmácia, que é o número que muda mais o resultado para cima ou para baixo.

"Vou ter que comprar um carregador?"

Essa é a objeção que aparece mais rápido, e a resposta costuma surpreender: na maioria dos casos, não.

O modelo mais comum para farmácia é a cessão do espaço. A loja disponibiliza a vaga e a conexão elétrica, e recebe uma contrapartida pelo uso, que pode ser um aluguel fixo, um percentual sobre o faturamento do carregador ou uma combinação dos dois. O investimento no equipamento e a operação ficam com quem explora o ponto.

Existe também o caminho oposto, em que a própria farmácia investe, opera e fica com toda a receita da recarga além do movimento na loja. É mais rentável e exige capital e envolvimento operacional. Qual dos dois faz sentido depende do perfil do proprietário e do potencial do ponto, e essa é uma das definições da análise inicial.

O que decide se funciona no seu caso

Nem toda farmácia é um bom ponto de recarga, e seria desonesto afirmar o contrário. Alguns fatores pesam mais que outros:

  • Frota eletrificada da cidade e do entorno: é o teto do que o ponto pode atender. Mede-se com dado oficial, por município.
  • Estacionamento próprio e acesso: a vaga precisa ser acessível e visível. Farmácia sem estacionamento dificilmente comporta um ponto de recarga.
  • Concorrência de pontos na região: quantos carregadores já existem num raio de poucos quilômetros, quanto operam e a que preço.
  • Capacidade elétrica disponível: se a energia que já chega na loja comporta o carregador ou se será necessário aumentar a demanda contratada junto à distribuidora, o que muda custo e prazo.
  • Horário de funcionamento: farmácias com horário estendido ou plantão têm vantagem clara, porque o ponto opera em janelas que a concorrência não cobre.

Nenhum desses fatores se responde de dentro da loja

Todos eles são mensuráveis. Levantamos a frota eletrificada do seu município com dado oficial, mapeamos os pontos concorrentes no entorno e verificamos a energia que já chega na sua farmácia. Você recebe o retrato do seu ponto específico, não uma média de mercado.

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Perguntas frequentes

Vale a pena instalar um carregador de carro elétrico na minha farmácia?

Depende do fluxo da região e da localização da loja, mas o perfil de farmácia é um dos que melhor se encaixa em recarga rápida. O cliente já fica de 10 a 40 minutos no local, tempo praticamente igual ao de uma sessão de recarga em corrente contínua. Isso significa que o carregador não disputa um cliente apressado: ele monetiza uma espera que já acontecia e que hoje não gera receita nenhuma.

A farmácia precisa comprar o carregador?

Não necessariamente. O modelo mais comum é a cessão do espaço: a farmácia disponibiliza a vaga e a conexão elétrica, e recebe uma contrapartida pelo uso, que pode ser aluguel fixo, percentual sobre o faturamento do carregador ou uma combinação dos dois. Existe também a alternativa de a própria farmácia investir e operar o ponto, ficando com toda a receita da recarga. As duas opções são avaliadas antes de qualquer decisão.

Como o carregador traz cliente novo para a farmácia?

Todo motorista de carro elétrico usa aplicativo para encontrar onde recarregar. Quando a farmácia passa a ter um ponto, ela aparece nesse mapa para todos os motoristas da região, inclusive quem nunca ouviu falar da loja. O motorista chega até ali pelo carregador e, já estando no local, resolve alguma necessidade de farmácia que teria de qualquer forma, só que agora na sua loja em vez de em outra.

Existe carro elétrico suficiente na minha cidade para justificar isso?

É a primeira coisa que precisa ser medida, e dá para medir com dado oficial, em qualquer cidade do Brasil. A frota registrada por município está nos dados abertos do SENATRAN. Como exemplo do método: em Toledo, no Paraná, os veículos eletrificados saíram de 48 em 2022 para 519 em 2026; em Cascavel, de 182 para 2.145 no mesmo período. Cidades diferentes têm curvas diferentes, e por isso a análise é feita por município específico, não por média nacional nem só para o Paraná.

O carregador vai ocupar minhas vagas de estacionamento?

Na maioria dos casos, uma ou duas vagas dedicadas resolvem. O ponto a considerar é que essa vaga passa a atrair um cliente que antes não parava na loja, com permanência maior do que a média. A avaliação de layout, incluindo quantas vagas comprometer sem prejudicar o giro normal do estacionamento, faz parte do projeto.

Quanto tempo leva desde a decisão até o carregador funcionando?

Com capacidade elétrica já disponível no local e equipamento pronto para entrega, o prazo é de poucas semanas. Se for necessário aumentar a demanda contratada junto à distribuidora ou importar o equipamento, o prazo total costuma ficar entre 3 e 4 meses. O levantamento da capacidade elétrica é justamente o que define em qual dos dois cenários a sua farmácia está.

Fontes

  • Frota de Toledo e Cascavel: SENATRAN, Frota por UF, Município e Combustível, junho de cada ano, 2022 a 2026
  • Paraná com 27 mil elétricos e alta de 189%: BemParaná, agosto de 2026
  • Brasil com 16% das vendas eletrificadas: ABVE e Fenabrave, 2026
  • Operação de pontos de recarga e rede Unipreço: monitoramento próprio da Burtet Engenharia sobre a malha nacional de eletropostos, agosto de 2026

Escrito por

Leonardo Alan Burtet

Engenheiro eletricista, CREA-PR 186348/D

Formado pela UTFPR. Projetos elétricos para infraestrutura de carregamento veicular, geração fotovoltaica e BESS em todo o Brasil. LinkedIn